SOBERANIA ALIMENTAR

Blandine Sankara: ‘A agroecologia é uma forma de resistência e descolonização’

Fundada pela irmã de Thomas Sankara, Associação Yelemani inspira luta contra contra desertificação em Burkina Faso

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Yelemani Association works towards food sovereignty in Burkina Faso.
Ensino da agroecologia para crianças e jovens é um dos focos da Associação Yelemani, criada por Blandine Sankara | Crédito: Associação Yelemani

Em Burkina Faso, a agroecologia floresce como um ato de resistência. Num país em que mais de 80% da população ativa vive da agricultura, movimentos camponeses e organizações sociais têm defendido a produção de alimentos saudáveis e a autossuficiência alimentar como caminho de libertação frente às chagas deixadas pelo neocolonialismo francês.

À frente desse esforço está a Associação Yelemani, fundada em 2009 por Blandine Sankara, irmã do líder revolucionário e ex-presidente do país Thomas Sankara, que governou o país de 1983 a 1987, quando foi assassinado.

A palavra Yelemani significa “mudança” ou “transformação” na língua dyula, a segunda mais falada em Burkina Faso. O nome resume a proposta da organização: mudar a relação entre as pessoas, a terra e o alimento, valorizando os recursos locais e resgatando a dignidade do mundo camponês.

No centro desse projeto está a agroecologia, vista não apenas como técnica de produção, mas como um instrumento anticolonial. Para Blandine, cultivar de forma agroecológica é resistir ao modelo econômico dominante que coloca o lucro acima da vida humana.

“Vemos realmente esses dois conceitos, soberania alimentar e agroecologia, como formas de resistência ao modelo econômico, e também como uma forma de descolonização”, coloca Sankara. 

Blandine Sankara em protesto contra a presença de multinacionais em Burkina Faso no ano de 2018

Com base em quatro eixos: produção, valorização dos produtos locais, formação e incidência política, a Yelemani se tornou uma referência no país. Recuperou terras degradadas, criou um banco de sementes camponesas, formou centenas de agricultores e estudantes, e esteve à frente de mobilizações nacionais contra transgênicos e corporações estrangeiras, como a Monsanto e a Fundação Bill Gates.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Blandine Sankara fala sobre a trajetória da Associação Yelemani, os resultados conquistados, e os desafios enfrentados pela agroecologia no país do Sahel.

“O que tenho a dizer é que a agroecologia está cada vez mais no centro da agricultura e das políticas. Vou falar das políticas agrícolas em Burkina Faso porque hoje temos uma estratégia nacional. Isso é raro. Um país que têm uma estratégia nacional no campo da agroecologia”, reflete.

Confira:

Brasil de Fato – Blandine, podemos começar falando um pouco sobre como a agroecologia entrou na sua vida e como foi o surgimento da Associação Yelemani?

Blandine Sankara – Antes de tudo, é preciso dizer que a Associação Yelemani foi criada em 2009. E principalmente que Yelemani significa “mudança” ou “transformação” na segunda língua mais falada de Burkina Faso, a dyula

E o que significa essa mudança? Para nós, é a valorização dos recursos locais, para garantir a dignidade do mundo camponês e construir nosso bem-estar cotidiano. Não se trata apenas dos camponeses. Trata-se, por um lado, da dignidade do camponês, mas também da construção do bem-estar de todo cidadão burquinabê.

Essa é a primeira explicação sobre o nome Yelemani. A organização se concentra na agricultura e na alimentação. Nosso trabalho está voltado para esses dois campos, que são amplos, porque tocam todos os aspectos da vida, afinal, dizem respeito a todos nós. E em um país como o nosso, onde mais de 80% da população ativa trabalha na agricultura, esse é um campo central, porque a alimentação diz respeito a todos. 

Paralelamente à mudança pela valorização dos recursos locais e do mundo camponês, falamos de uma transformação da mentalidade e dos comportamentos. Mesmo que na agroecologia nós trabalhamos para produzir alimentos saudáveis e ensinamos técnicas de cultivo junto aos camponeses, se não houver uma mudança na mentalidade dos consumidores, de todos nós, não avançamos.

Essa mudança é também uma mudança de comportamento e de desconstrução das ideias preconceituosas sobre nossos próprios produtos. Então há duas transformações que buscamos: uma na produção e outra nas mentalidades.

Aqui no Yelemani, promovemos a soberania alimentar e a prática da agroecologia. É claro que com a rejeição do uso de OGMs, fertilizantes químicos e pesticidas. Esse é o nosso trabalho. Promover a soberania alimentar por meio da agroecologia e da recusa ao modelo químico.

Nós enxergamos tudo isso como uma forma de resistência ao modelo econômico que coloca o lucro acima da vida humana. Esse é o fio condutor das nossas atividades e do nosso dia a dia. É a nossa visão. Vemos realmente esses dois conceitos, soberania alimentar e agroecologia, como formas de resistência ao modelo econômico, e também como uma forma de descolonização. 

Vista área do Sítio Yelemani mostra trabalho de educação feito com as crianças no local – Martin Demay/Rasca Production

Não só do que está em nossos pratos e em nossas terras, as sementes, mas também de nossos espíritos. Porque, como costumo dizer, houve uma colonização das mentalidades, uma espécie de violação do nosso próprio poder de agir. Resistir é também recusar que nossos campos, mercados e cozinhas sejam invadidos por produtos importados, sementes híbridas, pesticidas e até por sabores e normas que não são os nossos.

Esse é o combate da Yelemani, a sua marca no conjunto das organizações que trabalham pela soberania alimentar e pela agroecologia em Burkina Faso. 

Em certo momento de nossas vidas, vivemos a Revolução em Burkina Faso nos anos 1980, uma experiência que nos marcou profundamente. Quem era jovem na época, estudante ou mesmo aluno, participou ou testemunhou o que estava em jogo no país.

No meu caso, estudei sociologia e tive muitas oportunidades de ir a vilarejos e regiões de Burkina, o que me fez compreender as realidades do mundo camponês. Mais tarde, em Genebra, durante meus estudos em desenvolvimento, aprofundei esse entendimento. Era a época da globalização, dos acordos de parceria econômica, e acompanhávamos de perto os debates.

Outro fator importante foi o período de 2008 a 2011, quando vivemos a chamada “crise do alto custo de vida”, com a disparada dos preços dos produtos básicos a nível mundial, ligada ao aumento do preço do barril de petróleo. Houve protestos em Uagadugu em várias cidades do país contra o aumento dos preços dos alimentos.

Tudo isso nos levou à conclusão de que era preciso caminhar rumo à soberania alimentar. Não apenas como conceito, mas como prática. Começamos a experimentar isso em 2009, e foi sobretudo, a partir de 2012, que iniciamos efetivamente nossas atividades.


Sobre as atividades que vocês desenvolvem no Yelemani desde 2009 e os resultados, o que você pode nos contar? 

Trabalhamos em quatro eixos principais. Primeiro, a produção e transformação de frutas e legumes agroecológicos em Lumbila, que fica a cerca de 30 km de Uagadugu. Lá, há três terrenos com produção, e são principalmente mulheres que trabalham. Mulheres deslocadas internamente. O que chamamos de deslocadas internas são pessoas que foram expulsas de suas casas devido ao terrorismo.

O segundo é a valorização e promoção dos produtos alimentares locais. Porque não basta produzir, é preciso valorizar o que é nosso, isso faz parte do combate pela descolonização alimentar.

Depois, está a educação e formação sobre agroecologia e soberania alimentar, porque pensamos que, mesmo que façamos um bom trabalho em termos de produção e transformação para oferecer produtos saudáveis e tudo mais, se o consumidor, especialmente os jovens, não estiverem sensibilizados, não teremos resultados. Não será uma mudança profunda.  Então, esse é o terceiro eixo e estamos trabalhando nas escolas.

Mas é preciso também trabalhar nas políticas, então adicionamos o quarto eixo, que é a defesa de ações junto aos tomadores de decisão política para que decidam levar em conta a agroecologia.

Trabalho na Yelemani gera oportunidade de renda para mulheres deslocadas pelo terrorismo | Crédito: Associação Yelemani/Divulgação

Entre os resultados, o primeiro foi a recuperação de um solo abandonado em Lumbila, considerado improdutivo. Em um ano, conseguimos regenerar a terra com práticas agroecológicas. Criamos também um mercado de produtos locais e, desde 2023, um banco de sementes camponesas, onde os agricultores podem retirar sementes e devolver o dobro após a colheita, sem transações comerciais.

Outro resultado importante é a produção de material pedagógico. Desde 2015 elaboramos módulos de formação em agroecologia e soberania alimentar (12 no total) e formamos agricultores, estudantes e professores.

Também tivemos vitórias políticas, como a expulsão da Monsanto em 2015, após uma mobilização nacional contra os transgênicos, e, em 2018, uma campanha que conseguiu barrar o projeto “Target Malaria”, financiado pela Fundação Bill Gates, que previa o lançamento de mosquitos geneticamente modificados.

Em 2019, durante o FESPACO (Festival Pan-Africano de Cinema de Uagadugu), conseguimos derrubar o monopólio de uma empresa francesa que impedia a venda de sucos locais no evento. Após pressão popular, um decreto autorizou os produtores locais a venderem suas bebidas.

Mas o maior resultado para nós segue sendo a recuperação da terra abandonada e improdutiva em Lumbila, símbolo do que a agroecologia pode realizar.

Com o fim da revolução nos anos 1980, houve uma ruptura no caminho de auto suficiência alimentar desenvolvido por Thomas Sankara. As empresas multinacionais, principalmente francesas, e o agronegócio mundial, recuperaram sua presença, desenvolvendo uma forma de agricultura que não colabora e, de certa forma, agrava o problema da desertificação no Sahel. Como você vê os efeitos da colonização na questão agrária em seu país? 

É preciso dizer que foi realmente durante a colonização que o capitalismo penetrou no setor agrícola tradicional, forçando a modernização de uma agricultura considerada atrasada e de subsistência, que foi obrigada a evoluir para uma agricultura comercial e mecanizada. Nesse momento, a ênfase foi colocada nas culturas destinadas à exportação, o que se chamava de produtos de renda e cultura de renda. 

Portanto, no caso de Burkina, foi o amendoim, mas sobretudo o algodão e, em menor medida, também o feijão verde. Quando olhamos hoje para o país, há uma grande área de terra, milhares de hectares de terra que foram destruídos pelo uso desses insumos químicos para a produção principalmente de algodão. São milhares de hectares que hoje precisam ser recuperados. É preciso restaurá-los.

As zonas mais ricas, as terras mais férteis, foram utilizadas para o cultivo do algodão, com o uso excessivo de produtos químicos para produzir mais e vender mais. Portanto, era realmente para a exportação, eram produtos de exportação para outros continentes, principalmente para a França.

Há também as enchentes causadas pelas chuvas, com a perda das sementes, o que obriga os agricultores a se endividarem para comprar novas sementes. Portanto, houve muitas consequências por conta dessa cultura de exportação. 

Nos anos 2000, o cultivo do algodão era feito com grande apoio da Monsanto, da qual falei há pouco, a empresa americana. Ela fez os produtores acreditarem que a colheita seria mais lucrativa com o algodão transgênico, sem inseticida adicional e com melhor rendimento. 

Nós podemos até dizer que houve uma colonização agrícola e alimentar, e que ela nunca terminou. As grandes potências e as multinacionais continuam a explorar os mesmos mecanismos.

Foi isso que eles disseram aos nossos produtores. Em 2009, esse algodão foi rentável nos primeiros três anos, mas muito rapidamente os agricultores tiveram que voltar a usar inseticidas porque a qualidade do algodão se deteriorou e a quantidade também não era a esperada, não estava à altura. E isso não é tudo. Isso também destrói as culturas vizinhas, não apenas o algodão, mas as culturas que estavam ao lado, como o gergelim, por exemplo, que foi totalmente destruído. 

E tudo isso em condições de degradação climática em Burkina. Portanto, a aplicação dessas políticas no setor agrícola levou à perda total de nossa autonomia alimentar e do conhecimento local, e até mesmo a segurança alimentar aumentou com a desvalorização das culturas alimentares em benefício dessas culturas.

Esses conhecimentos foram perdidos porque nos voltamos para essas culturas de exportação, e no entanto sabemos que nossos sistemas de produção se desenvolveram ancestralmente ao longo de 40 anos e milênios antes de receberem o nome de agroecologia. 

Portanto, sabíamos que havia práticas, como as que hoje chamamos de meias-luas, plantio de certas árvores, que eram conhecidas pelos nossos camponeses, uma diversidade dessas  formas de produção em pequena escala. E tudo isso foi mudado em favor dessas culturas para vender e ter mais dinheiro.

A agroecologia vai na contramão dessa lógica, porque propõe que o agricultor produza primeiro para alimentar sua família e sua comunidade. É uma questão de soberania. Enquanto formos dependentes de insumos, sementes e normas vindas de fora, não seremos livres.

Protesto contra a presença de multinacionais e contra os transgênicos levou associações as ruas em Burkina Faso no ano de 2018

E como você vê o papel do atual governo hoje nesse processo de descolonização? Há algum apoio efetivo à agroecologia ou à soberania alimentar?

O que tenho a dizer é que a agroecologia está cada vez mais no centro da agricultura e das políticas. Vou falar das políticas agrícola em Burkina Faso porque hoje temos uma estratégia nacional. Isso é raro. Um país que têm uma estratégia nacional no campo da agroecologia.

Um país que tem isso dentro do ministério, é realmente muito, muito forte. Portanto, cada vez mais, temos atores da agroecologia, pessoas que se comprometem, estruturas que se comprometem e acredito que, a nível político, estamos interessados, estamos realmente analisando de perto a questão da agroecologia. 

De qualquer forma, pesquisas de institutos mostraram que, até 2050, os rendimentos, mesmo com o impulso de meios técnicos e ecológicos, vão cair 30%. Haverá uma queda com as mudanças climáticas, com anos bons e anos ruins. 

Mas esses dados são realmente provenientes de institutos privados de pesquisa agrícola que não têm nada a ver com ecologia. Com as práticas agroecológicas, os rendimentos são inferiores aos rendimentos atuais, isso deve ser dito desde o início, são inferiores. Mas os rendimentos se equilibram em um determinado momento, tornam-se iguais. O que isso significa? Significa simplesmente que, quando colocamos de um lado a agroecologia e do outro o uso de agroquímicos para produzir, no início, é verdade, teremos rendimentos inferiores com a agroecologia em relação ao outro. Mas com o tempo, aos poucos, isso se equilibra, chega ao mesmo nível de rendimento, mas com a diferença de que a agroecologia é constante em seus rendimentos ano após ano. 

E isso permite que os agricultores sejam mais resilientes. Eles sabem o que vão ter no ano que vem. Isso permite que eles possam se organizar e serem mais resilientes. Isso é um fato, é uma realidade. 

A agricultura, cujos suprimentos e escoamento de mercadorias dependem dos grandes mercados supranacionais e, portanto, de alguns atores financeiros,  cujos capitais estão concentrados nas mãos de poucas pessoas, não é nada bom para os agricultores.

Portanto, quanto mais a agricultura se industrializa e cria um modelo econômico de abastecimento e venda, mais os trabalhadores, ou seja, os camponeses, os agricultores e o meio ambiente são excluídos.

É verdade que a lógica da cadeia produtiva permitiu o desenvolvimento de algumas regiões. Isso não se pode negar. A lógica da cadeia produtiva permitiu que algumas regiões, mesmo em Burkina Faso, se desenvolvessem. Mas também se tornassem verdadeiros desertos quando esses mesmos mercados se orientaram para outras atividades ou setores considerados mais lucrativos. 

Quando o algodão da Monsanto fez cair o mercado de Burkina Faso, porque a fibra do algodão encurtou e, no nível mundial, ninguém queria mais comprar o nosso algodão, o que fizemos? O que os agricultores podiam fazer com o algodão? Nada, porque não se come algodão. Não vamos comer algodão. E antes, quando funcionava, eles podiam vendê-lo e comprar cereais para comer. Mas como não conseguiram vender,teve pessoas que se suicidaram, produtores. 

Inauguração da fábrica de polpa de tomate em Bobo Dioulasso foi comemorada em todo o país | Crédito: Presidência de Burkina Faso

Então, essas são as realidades que vivemos. Se considerarmos o caso do feijão verde na época dos anos 80, por questões políticas, porque havia a revolução aqui, um país sem litoral, sem acesso ao mar, e tudo era feito por avião. Portanto, era necessário exportar por via aérea. Por questões políticas, o avião que deveria vir buscar o feijão verde dos agricultores de Burkina Faso em Uagadugu não veio, deixando toneladas de feijão no aeroporto. 

E o que fizemos na época? O governo forçar as pessoas a comprar, especialmente os funcionários públicos, cada funcionário tinha que comprar uma caixa, duas caixas, e cortavam do seu salário no final do mês para poder pagar aos agricultores, porque, caso contrário, o que iríamos dizer aos agricultores, que por questões políticas não podíamos levar seus feijões para a Europa, não era possível. 

Não quero entrar em considerações políticas, mas quero dizer que há uma complexidade mundial no momento. E portanto, o Yelemani enfrenta esse desafio. As crises climáticas que todos os que estão na agricultura enfrentam há anos, a perda da biodiversidade, os diversos conflitos, o terrorismo em nosso país e tudo isso causa uma insegurança alimentar cada vez maior, é preciso dizer. 

Portanto, essas realidades ameaçam nossos sistemas agrícolas, nossa saúde, nossa autonomia e, no fundo, nossa dignidade. É a dignidade humana. 

No entanto, existem soluções, como eu disse anteriormente, existem soluções agroecológicas ecológicas e outras ainda estão por ser desenvolvidas. Ainda podemos avançar em direção à agroecologia, que já provou seu valor.

Blandine, você teve uma visita de militantes do MST em 2018 ao Yelemani. Como foi a experiência de conhecer o MST e como ele pode inspirar a luta dos camponeses em Burkina Faso?

Devo dizer que a América Latina me fascina. Ela me fascina em sua luta, em seu trabalho, desde os tempos antigos e de forma permanente. Tive a oportunidade este ano de ir ao Equador e pude encontrar grupos e até mesmo jovens, e foi isso que mais me fascinou, a capacidade de compreender de onde vem o problema. E é isso, não se trata apenas da recuperação das terras, não se trata apenas da recuperação das suas raízes, trata-se de quebrar o sistema. 

E acho que o MST, pelo menos, quando eles vieram aqui ao Yelemani, foi isso que disseram, que é o sistema que precisa ser quebrado. Essa capacidade deles de compreender isso que me fascina e que eu gostaria que trabalhássemos muito na África, pelo menos na questão da agroecologia. É mais do que as práticas agroecológicas, que são bastante avançadas, mas é o lado político, o aspecto político de dizer que, no fim das contas, é preciso ir contra a lógica.

Hoje existe uma lógica que está concentrada nas mãos de alguns lobbies. E é preciso enfrentar isso. Caso contrário, corremos o risco de ficar presos em práticas, e sem entender que tudo isso não leva a nada, se não trabalharmos, no meu ponto de vista, para quebrar esse sistema. É esse sistema. Quando o MST esteve na nossa casa, compreendemos bem que, no fim de contas, lutamos contra um mesmo inimigo. Burkina Faso e a África também devem lutar, porque são os mesmos que exploram os países da América Latina. Portanto, não temos outra escolha. 

Eu acho que poderíamos nos unir para trabalhar, em um nível de nos ajudar, de nos apoiar em levar a luta a um nível político, em algo maior. Porque não estou falando somente de agroecologia, porque às vezes temos ambientes que são muito diferentes. E a agroecologia baseia-se no que existe localmente no seu território. Mesmo dentro de um mesmo país, os territórios não são os mesmos.

Lideranças dos países do Sahel celebraram o encontro com direção do MST e parlamentares brasileiros | Crédito: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato

O que estou enfatizando, pela minha pequena experiência, seja com o MST quando eles passaram pelo Yelemani, seja pelas discussões que tive no Equador, é que realmente pude perceber como a América Latina, que está em avanço sobre essas questões, pode nos apoiar em termos de animação de grupos de camponeses, animação de grupos de jovens. Eles têm certamente ferramentas que podem nos ajudar. E mesmo as experiências, como eles procederam para conseguir chegar a esse nível. Gostaria de ver aqui camponeses que não tem nenhum complexo em falar diante de inimigos, diante de autoridades. Gostaria de ver jovens se afirmarem, falarem e dizerem o que pensam.

Especialmente os jovens vindos das aldeias rurais. Porque essa é uma questão complexa no nosso caso. Não posso falar de toda a África, porque a África é muito grande, mas falo, por exemplo, dos nossos países francófonos. Há uma grande complexidade que faz com que haja muitas barreiras entre as pessoas da cidade e as do campo, entre aqueles que foram à escola e aqueles que não foram à escola.

Portanto, há muitas diferenças como essa que tornam tudo mais complicado, mas é preciso trabalhar para desconstruir tudo isso. É um caminho longo, é claro. Mas é a voz para caminhar em direção à soberania alimentar. Aqueles que estão na cidade, aqueles que tiveram a chance, como nós, de ir à escola, de ir longe, de conhecer outras coisas, como o MST, eis que podemos, junto com os movimentos da Ámerica Latina, ler e analisar para que possamos melhorar. 

É para os nossos pais, afinal, nossos pais camponeses. Porque em Burkina é isso, né?  Todo mundo tem a sua aldeia, todo mundo vem de uma aldeia. Então, todo mundo tem orgulho de dizer: “Essa é a minha aldeia, eu venho dessa aldeia”. E na aldeia, nossos pais que ficaram, nossos tios, nossas tias, são agricultores. Mais de 80% dos burkinabés vivem da agricultura.  

Portanto, a agricultura está no centro. E, para mim, é nesse nível que se trata de dar a mão, de como desenvolver esse movimento de reflexão. E como eles podem nos apoiar para melhorar as coisas. 

Também estamos trabalhando para valorizar o que temos hoje e, com a política atual, somos valorizados enquanto burkinabés. E isso deve ser dito e elogiado.

Editado por: Nathallia Fonseca

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